6 de mai de 2014

JEJUM - Parte 1 - Extraído do Livro CELEBRAÇÃO DA DISCIPLINA de Richard Foster

A Disciplina do Jejum


Algumas pessoas têm exaltado o jejum religioso elevando-o além das Escrituras e da razão; e outras o têm menosprezado por completo.” - João Wesley

Em uma cultura onde a paisagem está pontilhada de restaurantes de todos os tipos, o jejum parece fora de lugar, fora de passo com os tempos. Com efeito, o jejum tem estado em geral descrédito, tanto dentro como fora da igreja, por muitos anos. Por exemplo, em minha pesquisa não consegui encontrar um único livro publicado sobre o jejum, de 1861 a 1954, um período de quase cem anos.
Mais recentemente desenvolveu-se um renovado interesse pelo jejum, muito embora ele seja freqüentemente dogmático e carente de equilíbrio bíblico.
Que é que explicaria este quase total menosprezo por um assunto mencionado com tanta freqüência nas Escrituras e tão ardorosamente praticado pelos cristãos através dos séculos? Duas coisas. Em primeiro lugar, o jejum, como resultado das excessivas práticas ascéticas da Idade Média, adquiriu uma péssima reputação.
Daí que o jejum foi submetido aos mais rígidos regulamentos e praticado com extrema automortificação e flagelação. A cultura moderna reagiu fortemente contra esses excessos e tendeu a confundir jejum com mortificação.
O segundo motivo por que o jejum passou por tempos difíceis no século passado é a questão da propaganda. A publicidade com a qual somos alimentados hoje convenceu-nos de que se não tomarmos três boas refeições por dia, entremeadas com diversas refeições ligeiras, corremos o risco de morrer de fome. Isto, aliado à crença popular de que é uma virtude positiva satisfazer a todo apetite humano, fez que o jejum parecesse obsoleto. Quem quer que seriamente tente jejuar é bombardeado com objeções. “Entendo que o jejum é prejudicial à saúde.”
“Ele minará as suas forças e assim você não poderá trabalhar.” “Não destruirá ele o tecido saudável do corpo?” Tudo isto, naturalmente, é rematada tolice baseada no preconceito. Embora o corpo humano possa sobreviver apenas durante breve tempo sem ar ou sem água, ele pode passar muitos dias - em geral, cerca de quarenta - antes que comece a inanição. Sem que seja preciso concordar com as infladas alegações de alguns grupos, não é exagero dizer que, quando feito corretamente, o jejum pode ter efeitos físicos benéficos.
A Bíblia tem tanto que dizer a respeito do jejum, que faríamos bem em examinar uma vez mais esta antiga Disciplina. O rol dos personagens bíblicos que jejuavam torna-se um “Quem é quem” das Escrituras: Moisés, o legislador; Davi, o rei; Elias, o profeta; Ester, a rainha; Daniel, o vidente; Ana, a profetisa; Paulo, o apóstolo; Jesus Cristo, o Filho encarnado. Muitos dos grandes cristãos através da história da igreja jejuaram e deram seu testemunho sobre o valor do jejum; entre eles estavam Martinho Lutero, João Calvino, John Knox, João Wesley, Jonathan Edwards, David Brainerd, Charles Finney e o Pastor Hsi, da China.
O jejum, está claro, não é uma Disciplina exclusivamente cristã; todas as grandes religiões do mundo reconhecem seu mérito. Zoroastro praticava o jejum, como o fizeram Confúcio e os iogues da Índia. Platão, Sócrates e Aristóteles jejuavam. Mesmo Hipócrates, pai da medicina moderna, acreditava no jejum. Ora bem, o fato de que todos esses indivíduos, na Bíblia e fora dela, tinham o jejum em alta conta não o torna certo ou mesmo desejável; isto porém, deveria levar-nos a fazer uma pausa e nos dispormos a reavaliar as suposições populares de nosso tempo concernentes à Disciplina do jejum.

 

O Jejum na Bíblia


Nas Escrituras o jejum refere-se à abstenção de alimento para finalidades espirituais. Ele se distingue da greve de fome, cujo propósito é adquirir poder político ou atrair a atenção para uma boa causa. Distingue-se, também, da dieta de saúde, que acentua a abstinência de alimento, mas para propósitos físicos e não espirituais. Devido à secularização da sociedade moderna, o “jejum” (se de algum modo praticado) é motivado ou por vaidade ou pelo desejo de poder. Isto não quer dizer que essas formas de “jejum” sejam necessariamente erradas, mas que seu objetivo difere do jejum descrito nas Escrituras. O jejum bíblico sempre se concentra em finalidades espirituais.
Na Bíblia, os meios normais de jejuar envolviam abstinência de qualquer alimento, sólido ou líquido, excetuando-se a água. No jejum de quarenta dias de Jesus, diz o evangelista que ele “nada comeu” e ao fim desses quarenta dias “teve fome”, e Satanás o tentou a comer, indicando que a abstenção era de alimento e não de água (Lucas 4.2ss). De uma perspectiva física, isto era o que geralmente estava envolvido num jejum.
Às vezes se descreve o que poderia ser considerado jejum parcial; isto é, há restrição e dieta mas não abstenção total. Embora pareça que o jejum normal fosse prática costumeira do profeta Daniel, houve uma ocasião em que, durante três semanas, ele não comeu “manjar desejável, nem carne nem vinho entraram na minha boca, nem me untei com óleo algum” (Daniel 10.3). Não somos informados do motivo para este afastamento de sua prática normal de jejuar; talvez seus deveres governamentais o obstassem.
Há, também, diversos exemplos bíblicos do que se tem chamado acertadamente “jejum absoluto”, ou abstenção tanto de alimento como de água. Parece ser uma medida desesperada para atender a uma emergência extrema. Após saber que a execução aguardava a ela e ao seu povo, Ester instruiu a Mordecai: “Vai, ajunta a todos os judeus... e jejuai por mim, e não comais nem bebais por três dias, nem de noite nem de dia; eu e as minhas servas também jejuaremos” (Ester 4.16).
Paulo fez um jejum absoluto de três dias após seu encontro com o Cristo vivo (Atos 9.9). Considerando-se que o corpo humano não pode passar sem água muito mais do que três dias, tanto Moisés como Elias empenharam-se no que deve considerar-se jejuns absolutos sobrenaturais de quarenta dias (Deuteronômio 9.9; 1 Reis 19.8). É preciso sublinhar que o jejum absoluto é a exceção e nunca deveria ser praticado, a menos que a pessoa tenha uma ordem muita clara de Deus, e por não mais do que três dias.
Na maioria dos casos, o jejum é um assunto privado entre o indivíduo e Deus.
Há, contudo, momentos ocasionais de jejuns de um grupo ou públicos. O único jejum público anual exigido pela lei mosaica era realizado no dia da expiação (Levítico 23.27). Era o dia do calendário judaico em que o povo tinha o dever de estar triste e aflito como expiação por seus pecados. (Aos poucos foram-se adicionando outros dias de jejum, até que hoje há mais de vinte!) Os jejuns eram convocados, também, em tempos de emergência de grupo ou nacional: “Tocai a trombeta em Sião, promulgai um santo jejum, proclamai uma assembléia solene” (Joel 2.15). Quando o reino de Judá foi invadido, o rei Josafá convocou a nação para jejuar (2 Crônicas 20.1-4). Em resposta à pregação de Jonas, toda a cidade de Nínive jejuou, inclusive os animais - involuntariamente, sem dúvida. Antes do retorno a Jerusalém, Esdras fez os exilados jejuar e orar por segurança na estrada infestada de salteadores (Esdras 8.21-23).
O jejum em grupo pode ser uma coisa maravilhosa e poderosa, contanto que haja um povo preparado e unânime nessas questões. Igrejas ou outros grupos que enfrentam sérios problemas poderiam ser substancialmente beneficiados mediante oração e jejum de grupo unificado. Quando um número suficiente de pessoas entende corretamente do que se trata, as convocações nacionais à oração e jejum podem, também, ter resultados benéficos. Em 1756 o rei da Inglaterra convocou um dia de solene oração e jejum por causa de uma ameaça de invasão por parte dos franceses. João Wesley registrou este fato em seu Diário, no dia 6 de fevereiro:
“O dia de jejum foi um dia glorioso, tal como Londres raramente tem visto desde a Restauração. Cada igreja da cidade estava mais do que lotada, e uma solene gravidade estampava-se em cada rosto. Certamente Deus ouve a oração, e haverá um alongamento de nossa tranqüilidade.”
Em uma nota ao pé da página ele escreveu: “A humildade transformou-se em regozijo nacional porque a ameaça de invasão dos franceses foi impedida.”
Através da história também se desenvolveu o que poderia chamar-se de jejuns regulares. Na época de Zacarias foram criados quatro jejuns regulares (Zacarias 8.19). A jactância do fariseu da parábola de Jesus evidentemente descrevia uma prática daquele tempo: “jejuo duas vezes por semana” (Lucas 18.12). O Didaquê insistia em dois jejuns semanais, nas quartas e nas sextas-feiras. O jejum regular tornou-se obrigatório no Segundo Concílio de Orleans, no sexto século.
João Wesley procurou reviver o ensino do Didaquê e insistiu com os primitivos metodistas a que jejuassem nas quartas e nas sextas-feiras. Com efeito, ele tinha um sentimento tão forte quanto a este assunto, que se recusava a ordenar para o ministério metodista, quem não jejuasse nesses dias.
O jejum regular ou semanal teve efeito tão profundo na vida de alguns que eles andavam à procura de um mandamento bíblico sobre o assunto, de sorte que pudessem impô-lo a todos os cristãos. A busca foi em vão. Simplesmente não existem leis bíblicas que ordenem o jejum regular. Contudo, nossa liberdade no evangelho não significa licença, mas oportunidade. Visto que não há leis que nos obriguem, somos livres para jejuar em qualquer dia
Há, hoje, uma “disciplina” que tem adquirido certa popularidade, semelhante, mas não idêntica, ao jejum. Chama-se “vigílias”, proveniente do uso que Paulo faz do termo em conexão com seus sofrimentos por Cristo (2 Coríntios 6.5; 11.27). Refere-se à abstenção de dormir a fim de atender à oração ou outros deveres espirituais. Não há indicação de que isso tenha qualquer ligação central com o jejum; doutra forma, estaríamos limitados a jejuns muito breves!
Embora as “vigílias” possam ter valor, e Deus às vezes nos chama a passar sem dormir por necessidades específicas, devemos cuidar para que não elevemos à categoria de obrigações principais coisas que têm apenas levíssimo precedente bíblico. Deveríamos ter sempre diante de nós a advertência de Paulo, porque, em qualquer discussão de Disciplinas, descobriríamos muitas coisas que “... com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e falsa humildade, e rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade” (Colossenses 2.23).

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